terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Para fechar o ano

"Você errou ao apostar em mim.
Quem poderia travar este diálogo?
Deus e o fracassado."
Emil Cioran

Dois mil e treze bem que poderia ir embora sem essa. Dias atrás um cidadão relatou por aí a situação difícil em que vivia uma senhora moradora de rua. Uma mulher, segundo o cidadão pagador de seus impostos, "vivendo em situação de vulnerabilidade e exclusão social, tomando chuva, dormindo ao relento e exposta a todos os demais riscos".

Tudo muito bonito, tudo dentro do clima que a época do Natal pede, até que o gentil munícipe começa a chegar ao ponto que lhe interessa, já que tal senhora "está submetendo a todos a atitudes vexatórias, fazendo todas as suas necessidades fisiológicas pelo local".

Uma afronta, sem dúvida alguma. Uma bizarrice que deveria estar em qualquer lugar, menos na bendita rua do nosso homem de bem.

E ainda tem mais. Eis que um nobre vereador resolve se solidarizar com o eleitor e promete dar um jeito na situação.

A troca de e-mails que se segue é ainda mais sintomática destes tempos bacanas em que vivemos

- Conforme contato da nossa assessoria, problema resolvido. A senhora citada não se encontra mais no local em referência. O que precisar, este vereador está a sua inteira disposição. Abraços, Feliz Ano Novo!!!

- Muito obrigado. Ficamos agradecidos pela atenção, alguém passou, conversou com ela e depois ela se retirou, juntamos os vizinhos e fizemos nós mesmos uma limpeza no local.

E para o bem de todos, do gentil cidadão, do prestativo vereador e de toda a vizinhança que se mobilizou para LIMPAR a área, tudo foi resolvido.

A senhora cagona? Ah, quem se importa com ela, não é mesmo?

Feliz 2014 para você também. (Angelo Davanço)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A velha senhora

Naturalmente, não conheci a dona Theolina de Andrade, morta em 1954. Também chamada de Sinhá Junqueira, seu olhar hoje paira sereno, num grande quadro pendurado em uma das salas do casarão onde ela viveu, na rua Duque de Caxias.

Em seu testamento, a sinhá fez algo raro de acontecer nesta época em que vivemos - deixou expressa, e por escrito, a ordem para transformar o seu casarão em uma biblioteca de acesso público. E lá está, até hoje, a Biblioteca Altino Arantes. Um raro exemplo de preservação do patrimônio histórico, normalmente tão desprezado pela maioria.

Conheci a biblioteca ainda moleque. Como morava a poucas quadras de lá, não era raro usar suas pesadas enciclopédias para trabalhos escolares nos tempos do Dom Luiz do Amaral Mousinho.

Tardes e tardes debruçado sobre aquelas pesadas mesas de madeira, copiando textos para trabalhos de história, geografia, biologia, português.

Pois outro dia voltei à Biblioteca Altino Arantes. Mais do que isso, voltei ao meu passado. Lá estão as mesmas mesas, as mesmas cadeiras, basicamente os mesmos livros, o mesmo olhar da Sinhá Junqueira e o mesmo José Carlos Gomes. Há quase meio século trabalhando na biblioteca, Gomes começou como officeboy e hoje administra o prédio e o seu acervo com mais de 40 mil obras. Títulos que estão lá, dia sim, dia também, à disposição de quem queira se desligar do “maravilhoso mundo tecnológico”.

Neste meu retorno, saí de lá com um livrão de seiscentas páginas de Dom Quixote. Não terminei ainda, mas pretendo voltar mais vezes à Altino Arantes em 2014. Me aguarde, Sinhá. (Angelo Davanço)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A Epopeia de 32

Os dias passam e lá está ela, silenciosa: a Epopeia de 32. Eu a observo e, do alto do seu silêncio, ela observa tudo. Os meninos que chegam para ficar à toa, as donas de casa apressadas pelas ofertas no comércio, os primeiros copos do Pinguim, o ‘colega’ Pedro II. Mas um dia, quente como tantos outros, noto que ela está irritada. Os dias passam e lá está ela, alvo fixo de pombos, andorinhas e outros seres alados que habitam a praça XV de Novembro. Ela já não suporta mais. Nossa combatente resolve apelar. Lança contra as aves a sua granada, testemunha fiel de tanta humilhação.

A arma passa com um petardo pela Baixada e explode nas inocentes águas do ribeirão Preto. O contra-ataque é rápido e logo a Epopeia se vê toda enlameada.
- Então é guerra?!
- Olha lá, a Epopeia falou!
- Nossa, está descendo!

Não se registrou feridos, muito menos mortos. O certo é que muitos aproveitaram para sair da choperia sem pagar a conta, ainda confusos: - Essa bebida ainda acaba comigo! A Epopeia não via obstáculos à sua frente, mas não chegou a causar grandes estragos. Logo as equipes de tevê já estavam na praça: - Estamos ao vivo no local onde a Epopeia faz o seu protesto.

E lá foi a nossa heroína, rumo à fonte luminosa, dar um fim a tanta sujeira. Foi tudo muito rápido, apesar de seu corpo colossal. Na sua volta, muitos aplaudiram, outros tantos choraram. Ela subiu e continuou imponente. Retirou outra granada de seu arsenal, ficou em posição de combate e não deu mais atenção aos burburinhos à sua volta, como sempre. (Angelo Davanço)

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Vai e vem e volta... O Ribernauta

Sabe aquelas ideias que ficam martelando na cabeça? Idéias com acento, do tempo antes da reforma ortográfica? Todo mundo tem. Às vezes elas desaparecem mas, numa noite de insônia qualquer, pimba! Lá vem a ideia te martelar.

É mais ou menos assim este Ribernauta. Ele já existiu, já teve outros nomes, já teve outras propostas. Ele já foi e já voltou. E já foi e já voltou de novo. E aqui está novamente.

Desta vez sem grandes expectativas, afinal a roda já foi inventada faz tempo. Vou escrever, vou fotografar, vou postar. Se alguém quiser seguir junto, será um prazer. Não me interessa a quantidade das estatísticas, mas a qualidade de quem quiser perder alguns minutos por aqui. Vamos juntos? (Angelo Davanço)

Obs.: E se toda ocasião pede uma música, vamos de Ira!, '15 Anos (Vivendo e não aprendendo)'






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